Por isso...

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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Preconceito e discriminação no Twitter - em que ano nós estamos?

Vocês devem ter ouvido falar da Mayara Petruso, a filhota de Hitler, afilhada de Mussolini, que apregoou sem pudores, o preconceito contra os nordestinos, logo após a eleição de Dilma Roussef à presidência do Brasil.



Pois bem. Como única nordestina desse bloguito, me sinto no direito de demonstrar o meu repúdio. Não quero levantar bandeiras políticas, muito menos fazer um estudo social-geográfico, pois não sou abalizada para tanto.

Vou falar com meu coração cearense, pura e simplesmente. De uma realidade, sofrida que conheço de perto.
A seca maltrata o sertanejo desde sempre, mas seria ingenuidade culpar as intempéries climáticas. Acredito que a seca, que ainda assola o sertão do nordesde, é política! E as pessoas que lá sobrevivem, são a massa de manobra. Isso já está começando a mudar...

E por falta de políticas públicas, de empregos, sobrevivendo de uma agricultura de subsistência e, buscando uma "oportunidade", o nordestino deixa sua terra para trabalhar arduamente em outras que lhe prometem "o de comer". E, cheios de coragem e com o coração cheio de esperança, embarcavam nos paus-de-arara rumo ao sul. Muitas vezes, enterravam seus entes queridos pela estrada, por não aguentarem a fome, a sede....

Foto tirada em Quixadá - sertão do CE - pelo
fotógrafo Queiroz Neto

Culpam o nordestino por deixar a sua terra pra buscar oportunidades em outra. E os imigrantes? que saíram de seus países fugindo da guerra e da fome? Os italianos, os poloneses, os italianos, os alemães, os austríacos e tantos outros que, aportaram em solo brasileiro porque acreditaram que encontrariam aqui, paz e prosperidade; que também viram entes queridos morrerem de pestes nos porões dos navios? A meu ver, apesar do momento histórico distinto, a situação é muito semelhante.

Nordestino não é gente? É um povo cansado, massacrado pelo sol inclemente; que aprende desde cedo a conviver com as perdas; com a sede, com a fome. Que vive sem esperanças, que traz nos talhos da face, as alegrias que não pôde ter, que não perde a fé, que se arrisca, que tem CORAGEM, que mesmo contrariado, acredita que a vida pode valer a pena; que trabalha, que produz! Que parte, só pensando em voltar........



Não à toa, o fotógrafo, Queiroz Neto, batizou essa foto
de: Firmeza. Palavra correta para caracterizar um
sertanejo.

À Mayara, os rigores da lei. E que sirva de exemplo para coibir propagação de preconceito e xenofobia de qualquer ordem, nas redes sociais.

*****************

Quem cantou lindamente um poema de Patativa do Assaré, chamado A Triste Partida - foi Luiz Gonzaga. Um dos maiores poetas populares que temos e que, mesmo tendo passado apenas seis meses na escola, é estudado em Sorbonne, na cadeira de Literatura Popular Universal.

É mais que uma música, é um lamento.

A Triste Partida Luiz Gonzaga

Patativa do Assaré

Meu Deus, meu Deus
Setembro passou
Outubro e Novembro
Já tamo em Dezembro
Meu Deus, que é de nós,
Meu Deus, meu Deus
Assim fala o pobre
Do seco Nordeste
Com medo da peste
Da fome feroz
Ai, ai, ai, ai

A treze do mês
Ele fez experiência
Perdeu sua crença
Nas pedras de sal,
Meu Deus, meu Deus
Mas noutra esperança
Com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natal
Ai, ai, ai, ai

Rompeu-se o Natal
Porém barra não veio
O sol bem vermeio
Nasceu muito além
Meu Deus, meu Deus
Na copa da mata
Buzina a cigarra
Ninguém vê a barra
Pois a barra não tem
Ai, ai, ai, ai

Sem chuva na terra
Descamba Janeiro,
Depois fevereiro
E o mesmo verão
Meu Deus, meu Deus
Entonce o nortista
Pensando consigo
Diz: "isso é castigo
não chove mais não"
Ai, ai, ai, ai

Apela pra Março
Que é o mês preferido
Do santo querido
Senhor São José
Meu Deus, meu Deus
Mas nada de chuva
Tá tudo sem jeito
Lhe foge do peito
O resto da fé
Ai, ai, ai, ai

Agora pensando
Ele segue outra tria
Chamando a famia
Começa a dizer
Meu Deus, meu Deus
Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Nós vamos a São Paulo
Viver ou morrer
Ai, ai, ai, ai

Nós vamos a São Paulo
Que a coisa tá feia
Por terras alheia
Nós vamos vagar
Meu Deus, meu Deus
Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Cá e pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar
Ai, ai, ai, ai

E vende seu burro
Jumento e o cavalo
Inté mesmo o galo
Venderam também
Meu Deus, meu Deus
Pois logo aparece
Feliz fazendeiro
Por pouco dinheiro
Lhe compra o que tem
Ai, ai, ai, ai

Em um caminhão
Ele joga a famia
Chegou o triste dia
Já vai viajar
Meu Deus, meu Deus
A seca terrível
Que tudo devora
Lhe bota pra fora
Da terra natá
Ai, ai, ai, ai

O carro já corre
No topo da serra
Oiando pra terra
Seu berço, seu lar
Meu Deus, meu Deus
Aquele nortista
Partido de pena
De longe acena
Adeus meu lugar
Ai, ai, ai, ai

No dia seguinte
Já tudo enfadado
E o carro embalado
Veloz a correr
Meu Deus, meu Deus
Tão triste, coitado
Falando saudoso
Seu filho choroso
Exclama a dizer
Ai, ai, ai, ai

De pena e saudade
Papai sei que morro
Meu pobre cachorro
Quem dá de comer?
Meu Deus, meu Deus
Já outro pergunta
Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato
Mimi vai morrer
Ai, ai, ai, ai

E a linda pequena
Tremendo de medo
"Mamãe, meus brinquedo
Meu pé de fulô?"
Meu Deus, meu Deus
Meu pé de roseira
Coitado, ele seca
E minha boneca
Também lá ficou
Ai, ai, ai, ai

E assim vão deixando
Com choro e gemido
Do berço querido
Céu lindo azul
Meu Deus, meu Deus
O pai, pesaroso
Nos filho pensando
E o carro rodando
Na estrada do Sul
Ai, ai, ai, ai

Chegaram em São Paulo
Sem cobre quebrado
E o pobre acanhado
Procura um patrão
Meu Deus, meu Deus
Só vê cara estranha
De estranha gente
Tudo é diferente
Do caro torrão
Ai, ai, ai, ai

Trabaia dois ano,
Três ano e mais ano
E sempre nos prano
De um dia vortar
Meu Deus, meu Deus
Mas nunca ele pode
Só vive devendo
E assim vai sofrendo
É sofrer sem parar
Ai, ai, ai, ai

Se arguma notícia
Das banda do norte
Tem ele por sorte
O gosto de ouvir
Meu Deus, meu Deus
Lhe bate no peito
Saudade lhe molho
E as água nos óio
Começa a cair
Ai, ai, ai, ai

Do mundo afastado
Ali vive preso
Sofrendo desprezo
Devendo ao patrão
Meu Deus, meu Deus

O tempo rolando
Vai dia e vem dia
E aquela famia
Não vorta mais não
Ai, ai, ai, ai
Distante da terra
Tão seca mas boa
Exposto à garoa
À lama e o paul
Meu Deus, meu Deus
Faz pena o nortista
Tão forte, tão bravo
Viver como escravo
No Norte e no Sul
Ai, ai, ai, ai

E pra quem quiser ouvir:
 


Vamos pensar grande, com Dani Dinky Doo? Vamos deixar de lado as rixas bairristas e lembrar que somos todos BRASILEIROS.

Ah! o contato do fotógrafo (meu cunhado) aqui.
E notícias do caso Mayara aqui e aqui.
E o link do texto super lúcido do José Barbosa Júnior - Calem a boca, nordestinos! - que circulou pela net, aqui

Por falar em twitter, também estou por lá: @DanieleBt. Me tuíta!

É isso, pipou.
Beijos com sabor de rapadura

11 comentários:

karine disse...

Amiga AMEIII o post!!! So não gostei de um pequeno detalhezinho que vc sabe...kkkkk...brincadeirinha!

Me emocionei pq como vc bem sabe, eu APRENDI a AMAR meu cantinho, a dar valor e a ter muito orgulho dele!!! A essa imbecilzinha ai so resta esperar a justiça, mas de qualquer forma ela ja vai ser eternamente lembrada com a estudante de direito mais imbecil dos ultimos tempos...
A ela aquela velha frase "eu moro aonde vc adoraria passar ferias" !!!
bjao

Tati disse...

Dani,
infelizmente tem muito idiota por aí...se acham os "puros" e em nome disso falam e fazem muita merda!
lamentável!
bjs

rsavio disse...

Dani, Tô todo arrepiado!! Não costumo dar IBOPE a esse tipo de picuinha, pois prefiro disseminar as relações humanas mais bonitas! Mais adorei o texto, adorei mesmo! Sempre soube da sua veia editorial, precisa escrever maais, tô procurando uma blogueira pra escrever sobre cotidiano no site da ONIS! E aí pilha!!! E pra terminar como vc jpa citou o maior poeta que esse país já teve, vai um trecho do poema Cabra da peste:
"Eu sou de uma terra que o povo padece. Mas nunca esmorece, procura vencê,Da terra adorada, que a bela cabôca. Com riso na bôca zomba no sofrê.Não nego meu sangue, não nego meu nome,Olho para fome e pergunto: o que há?
Eu sou brasilêro fio do Nordeste,
Sou Cabra da Peste, sou do Ceará.

Carla disse...

Amiga, arrepiei lendo o que vc escreveu, linda defesa!!!!!!
Quanta barbaridade esta menina lançou contra os nordestinos, totalmente sem noção, mas ela já está pagando, está se voltando contra ela as palavras lançadas ao vento! E a ventania vai ser maior ainda: PRA ELA!!!!
Beijos para vc e para o Nordeste que é lugar para se admirar pelas pessoas e pelo que é!!!!!

Betina Denardin Szabo disse...

É... Tem muita gente ignorante nesse mundo. Esses que falam essas besteiras que parecem ser monstros, e não gente....


Olha, mas tem uma coisa que é verdade... Aqui no sul, quando faz um calorão daqueles e o povo fica todo mole e reclamão, a gente comenta que deve ser fogo trabalhar e lutar pela vida aí pra cima, com essa lua queimando o côco. Não tô dizendo que nordestino é preguiçoso... Muito pelo contrário! Precisa ser um povo muito batalhador pra enfrentar tanta mazela com um sorriso no rosto.

Genis disse...

Menina, eu num tava sabendo disso, que horror!
Belo post e assino embaixo.
Bjs.
http://mamaegenis.blogspot.com/
http://blogdagenis.blogspot.com/
http://recantodasmamaesblogueiras.blogspot.com/

Daya disse...

Dani, lindíssima suas palavras, acho que todo forma de preconceito deve ser combatida, repudiada.
E eu penso exatamente como vc, que devemos deixar de lada as rixas bairristas!!!!!
bjks

Dani disse...

É isso, gente! Revoltante saber que pessoas conseguem pensar de forma tão preconceituosa nos dias de hoje.
Que fique a lição: não se joga palavras ao vento!

Rodrigo, isso foi um convite? Foi? Foi? Tô na área, se derrubar é pênalti. hahaha

Bjos

Bia Machado disse...

Oi Dani,
Muito oportuno seu texto!Vamos semear a paz. Se cada um de nós, adultos, instruidos e de bem com a vida, dermos o desprezo como respostas a esses levantes de agressividade gratuitas,podemos evitar muita conversa fiada e ridícula.
Ah, sou nordestina e amo minha terra!
Um abraço

Kelly Zanin disse...

Infelizmente mesmo tendo um CF que presa os direitos das pessoas, e um Direito Humano universal, tem gente que prega a distinção, o pré conceito das coisas, julgando alguém pela cor, origem, raça, credo, fico muito triste, o mundo já passou por períodos de caça as bruxas, escravidão e tem gente presa ainda a conceitos retrógrados e um vendo nos olhos, e ainda mais uma brasileira que o país onde se tem mais mistura de raças do que todos os outros país, todos nossos temos sangue de bugre, negros, nordestinos, italianos, alemão, e tudo que existe, é uma país cheio de cultura e miscigenação, por isso é lindo viver aqui. A única coisa que posso fazer é rezar por essas pessoas pra que vejam que a vida na diversidade..

Dani disse...

Bia e Kelly, adorei os comentários. Bom saber que a maioria das pessoas ainda se choca com notícias como essa!